Escrita de "baixo-ajuda"
- Título extraído de notas mentais dos diálogos e aulas com o professor de literatura da UFJF, Marcos Vinícius.
Vez por outra qnd vou pra rua andar fico pensando que alguma coisa poderia se passar, que fomentasse minha ânsia pela escrita. e esse pensamento me leva a me aprofundar ainda mais nas minhas divagações, refletindo no cuidado que se deve ter para que tal vontade não construa por si só o objeto de textualização, pra não sair por aí colocando chifres na cabeça de cavalos; ou, por outro lado, se algo realmente se passar, no cuidado que preciso ter para com a seleção das palavras que possam melhor retratar a casualidade do evento visando não impor à interlocução uma visão fechada do narrado.
Com toda essa cobrança, acaba é que naturalmente tudo acontece, mas quase nada, e quase sempre, nada se escreve.
Falamos, portanto, do que escrever e logo sentimos o apelo utilitário do porquê escrever. Nesse caso, como em quase todos, poderia se dizer que se escreve para ser lido. Mas pra quê ser lido? Oras, num mundo em que tudo se passa de maneira tão rápida e em que as afinidades tem sido tão confrontadas, pode ser a escrita uma ferramenta de acesso ao que subjaz nas superficialidades. Ainda que seja a escrita algo tão aparente, resta nela, frente à experiência da vida. alguma concretude. Pode-se demorar nela, entendendo ou não. O tempo utilitário torna-se re-relativizado novamente, sem perdão da redundância. Talvez seja esse o problema da escrita e da leitura, essa subversão da visão que o modo de vida atual nos impõe. Muito se ganha com a focalização na utilitariedade das coisas no quesito financeiro, por outro lado tudo se perde, pois nunca se está satisfeito.
De uma antiga amizade que ainda guardo comigo, devido a dureza das coisas institucionais, guardo a experiência relatada de um colega que, possuidor de uma boa maneira de aquisição material, vivia me dizendo: comprei aquilo, Weber, agora - angustiado - não sei o que é que eu vou comprar; o tempo todo maquinando em como levar vantagem em cima daquilo que adquiria. Noutra ocasião eu estava num parquinho da cidade brincando com minha sobrinha e havia um garoto se achando o esperto ao furar a fila do escorregador, pois conseguia, assim que alguma criança descia, subir correndo pelo escorregador e escorregar antes que o 'próximo' se posicionasse para descer. Ele tinha o know-how e a competência física para fazê-lo. O menino estava feliz por estar passando a perna, levando vantagem, em cima de todos os outros. Olhem só que visão empreendedora. Alguns poderiam dizer: mas isso é coisa de criança, não precisamos ligar pra isso. Leva-nos até a imaginar que essa seria de fato uma atitude natural do ser humano, o que me recuso a fazer. A criança, em sua inocência, é espontânea e, provavelmente, fazia aquilo justamente para se exibir para alguém que a leva a aceitar a naturalidade e os benefícios daquilo.
Outra
observação que eu acredito valer a pena contar, aconteceu numa outra dessas
minhas andanças. Desta vez, eu estava acabando de descer a ladeira aqui de casa
pra ganhar a baixada do bairro, perto de um mercado da rede unida de onde saiam
dois garotos bem novos, um devia ter aproximadamente 5 anos e o outro uns 8,
meninos típicos de periferia, pela roupa e corpos miúdos, cor da pele e tb por
estarem iniciando a subida da ladeira, provavelmente de volta pra casa. Um
deles vinha chupando um pirulito e o outro, o mais novo, tentava sem sucesso
retirar a embalagem do seu doce e começava a ficar ansioso com aquilo ao ponto
de começar a chorar e pedir ajuda para o irmão. Mais furioso do que o que
poderíamos considerar proporcional, o irmão virou para o mais novo e o lavou de
baixo a baixo de palavrões ao ponto de cortar o meu clima de observação. Tudo
por conta de uma embalagem de pirulito. Aquilo teve que me descer a seco, sendo
outra vez obrigado a imaginar o porquê de tanta selvageria e tb a pensar no
lugar em que a reprodução de reações desse tipo seriam comuns, visitando a
construção hipotética de um lar onde esse tratamento é rotineiro. Se as
crianças são assim, vcs imaginem os adultos, o jovem, que estão acostumados a
habitar um local desse tipo, visto de maneira restrita. Essa observação me foi
um choque de realidades tão grande, que me levou a pensar que vivemos em uma
serie de realidades paralelas, sobrepostas e interdependentes, similar a um
modelo atômico, aquele das camadas. Me lembrou até daquela frase feita: fulano
não tem nada a perder. Advirto, aos que buscam lavar as mãos, que nesse tipo de
visão da realidade uma paralelidade dessas gera a outra, por isso, não tem
esquiva não, somos todos responsáveis pelos outros.
Para relacionar os relatos quero enfatizar a mentalidade predadora que orienta
as duas posturas do menino do escorregador e do menino do pirulito, em uma
delas vemos uma criança feliz por driblar as claras regras da brincadeira para
satisfazer suas vontades individuais, na outra vemos dois garotos, como filhotes
de leão, brincando de brigar por aquilo que têm vontade. Agora mistura tudo
isso nos campus da vida com algumas ovelhinhas
Nenhum cuidador advertiu os
meninos. Nem eu. No entanto, aqui está o texto, em sua finalidade, para que em
conjunto possamos refletir sobre nossas maneiras de experimentar o tempo,
encarar os desafios do mundo e criar as formas de vida que ainda estão por ser.
Nenhum cuidador advertiu o menino. Nem eu. No entanto, aqui está o texto, em sua finalidade, para que em conjunto possamos refletir sobre nossas maneiras de experimentar o tempo, encarar os desafios do mundo e criar as formas de vida que ainda estão por ser.

