terça-feira, 11 de outubro de 2016

  Escrita de "baixo-ajuda"  

- Título extraído de notas mentais dos diálogos e aulas com o professor de literatura da UFJF, Marcos Vinícius.

    Vez por outra qnd vou pra rua andar fico pensando que alguma coisa poderia se passar, que fomentasse minha ânsia pela escrita. e esse pensamento me leva a me aprofundar ainda mais nas minhas divagações, refletindo no cuidado que se deve ter para que tal vontade não construa por si só o objeto de textualização, pra não sair por aí colocando chifres na cabeça de cavalos; ou, por outro lado, se algo realmente se passar, no cuidado que preciso ter para com a seleção das palavras que possam melhor retratar a casualidade do evento visando não impor à interlocução uma visão fechada do narrado.
    Com toda essa cobrança, acaba é que naturalmente tudo acontece, mas quase nada, e quase sempre, nada se escreve.
    Falamos, portanto, do que escrever e logo sentimos o apelo utilitário do porquê escrever. Nesse caso, como em quase todos, poderia se dizer que se escreve para ser lido. Mas pra quê ser lido? Oras, num mundo em que tudo se passa de maneira tão rápida e em que as afinidades tem sido tão confrontadas, pode ser a escrita uma ferramenta de acesso ao que subjaz nas superficialidades. Ainda que seja a escrita algo tão aparente, resta nela, frente à experiência da vida. alguma concretude. Pode-se demorar nela, entendendo ou não. O tempo utilitário torna-se re-relativizado novamente, sem perdão da redundância. Talvez seja esse o problema da escrita e da leitura, essa subversão da visão que o modo de vida atual nos impõe. Muito se ganha com a focalização na utilitariedade das coisas no quesito financeiro, por outro lado tudo se perde, pois nunca se está satisfeito.
     De uma antiga amizade que ainda guardo comigo, devido a dureza das coisas institucionais, guardo a experiência relatada de um colega que, possuidor de uma boa maneira de aquisição material, vivia me dizendo: comprei aquilo, Weber, agora - angustiado - não sei o que é que eu vou comprar; o tempo todo maquinando em como levar vantagem em cima daquilo que adquiria. Noutra ocasião eu estava num parquinho da cidade brincando com minha sobrinha e havia um garoto se achando o esperto ao furar a fila do escorregador, pois conseguia, assim que alguma criança descia, subir correndo pelo escorregador e escorregar antes que o 'próximo' se posicionasse para descer. Ele tinha o know-how e a competência física para fazê-lo. O menino estava feliz por estar passando a perna, levando vantagem, em cima de todos os outros. Olhem só que visão empreendedora. Alguns poderiam dizer: mas isso é coisa de criança, não precisamos ligar pra isso. Leva-nos até a imaginar que essa seria de fato uma atitude natural do ser humano, o que me recuso a fazer. A criança, em sua inocência, é espontânea e, provavelmente, fazia aquilo justamente para se exibir para alguém que a leva a aceitar a naturalidade e os benefícios daquilo. 
     Outra observação que eu acredito valer a pena contar, aconteceu numa outra dessas minhas andanças. Desta vez, eu estava acabando de descer a ladeira aqui de casa pra ganhar a baixada do bairro, perto de um mercado da rede unida de onde saiam dois garotos bem novos, um devia ter aproximadamente 5 anos e o outro uns 8, meninos típicos de periferia, pela roupa e corpos miúdos, cor da pele e tb por estarem iniciando a subida da ladeira, provavelmente de volta pra casa. Um deles vinha chupando um pirulito e o outro, o mais novo, tentava sem sucesso retirar a embalagem do seu doce e começava a ficar ansioso com aquilo ao ponto de começar a chorar e pedir ajuda para o irmão. Mais furioso do que o que poderíamos considerar proporcional, o irmão virou para o mais novo e o lavou de baixo a baixo de palavrões ao ponto de cortar o meu clima de observação. Tudo por conta de uma embalagem de pirulito. Aquilo teve que me descer a seco, sendo outra vez obrigado a imaginar o porquê de tanta selvageria e tb a pensar no lugar em que a reprodução de reações desse tipo seriam comuns, visitando a construção hipotética de um lar onde esse tratamento é rotineiro. Se as crianças são assim, vcs imaginem os adultos, o jovem, que estão acostumados a habitar um local desse tipo, visto de maneira restrita. Essa observação me foi um choque de realidades tão grande, que me levou a pensar que vivemos em uma serie de realidades paralelas, sobrepostas e interdependentes, similar a um modelo atômico, aquele das camadas. Me lembrou até daquela frase feita: fulano não tem nada a perder. Advirto, aos que buscam lavar as mãos, que nesse tipo de visão da realidade uma paralelidade dessas gera a outra, por isso, não tem esquiva não, somos todos responsáveis pelos outros.

    Para relacionar os relatos quero enfatizar a mentalidade predadora que orienta as duas posturas do menino do escorregador e do menino do pirulito, em uma delas vemos uma criança feliz por driblar as claras regras da brincadeira para satisfazer suas vontades individuais, na outra vemos dois garotos, como filhotes de leão, brincando de brigar por aquilo que têm vontade. Agora mistura tudo isso nos campus da vida com algumas ovelhinhas
    Nenhum cuidador advertiu os meninos. Nem eu. No entanto, aqui está o texto, em sua finalidade, para que em conjunto possamos refletir sobre nossas maneiras de experimentar o tempo, encarar os desafios do mundo e criar as formas de vida que ainda estão por ser.
    Nenhum cuidador advertiu o menino. Nem eu. No entanto, aqui está o texto, em sua finalidade, para que em conjunto possamos refletir sobre nossas maneiras de experimentar o tempo, encarar os desafios do mundo e criar as formas de vida que ainda estão por ser.

sábado, 1 de outubro de 2016

Conversa Atravessada II

"A história não passa hoje de um pretexto pra se continuar enganando a humanidade". 

- Ramón Gómez de la Serna citado por Abujamra






    Todo dia, ou quase todos, qnd eu tô saindo, ou qnd chego aqui na  berada pra observar a vida e o visual da city, me deparo com essa arvrezinha, que briguei com a gramática mental por querer chamar ela de 'minha'. Mas então, adotei ela faz alguns meses, cerca de cinco meses - acho, e vinha pensando em escrever sobre como era tratar de uma arvre em miniatura, que o pessoal chama de 'bonsai' -  eu também, mas achei que pareceria meio gourmet usar essa 'word' aqui, já que, destacada de seu contexto oriental, ela pouco expressaria o que eu teria pra dizer sobre a planta.
    Acontece que esse pequeno arbusto tem me causado uma pontinha de mal-estar, e, pra quem me acompanha o raciocínio, esse é dos piores. Os grandes malestares me parecem que são sentidos por um maior número de pessoas e assim se tem uma sensação de normalidade perante eles, se é que me faço entender. Se não, desconsidere.
    É o seguinte, faça sol ou faça chuva, esteja eu alegre ou triste, lá está ela do mesmo jeito, insensível (solidário de mim o cel errou e sugeriu a palavra 'iceberg' - declinei). Essa arvrinha, chegad@, só precisa de meio copo de água, dia sim, dois não - já passei até mais. Olha que constança. E a gente pensa que vai ficar fazendo intervenção paisagista nela toda hora. Tem isso não. Desde que reboquei ela pra cá, cortei só uma meia dúzia de galhim, e faz tempo isso. Meteram fogo no mato aqui -  tudo  consumido - e eles já tão crescendo como praga e até já estão maiores que ela. As árvores da matinha, suas vizinhas de paisagem, se renderam ao momento da estação e já tão ficando tudo depenada, enquanto ela, em sua miudeza, parece estar até mais vistosa - talvez pela situação penosa das outras. Isso que dá o contato com material conceitual de cultura diferente. Um bom escritor se fosse falar de bonsai, provavelmente, faria um Haikai e representaria o universo, esses caras são demais. Raios me partam, pq enquanto 'moi, mon ami,' fico pensando em escrever uma "novela" (sugestão do cel - aceitei, queria teclar 'a novel', no the slide keyboard).
Não nos dispersemos mais. Tem uma frase que ouvi em um vídeo no you tube, coisa do café filosófico - achou que ia escapar das minhas re-flexões, né!? Rsrs. Despeço-me dos enfadados. Então, como contava, o palestrante, um psicólogo, dizia que qnd falamos de alguém, e percebo que até de coisas, falamos mais da gente mesmo do que do outro, ou da coisa. Eu só me apropriei disso experimentando: num dia em que saia apressado pra trabalhar de manhã e, tendo o sinal fechado, parei atrás de outro veículo, qnd percebi que o farol do carro que eu conduzia estava ligado. "Olhar pro outro e ver vc", sentiu o drama?
    Essa pequena árvore, colegas, faz mais intervenções em mim, do que eu nela. Ela me faz pisar no freio da vida, desacelerar. Me faz pensar no porquê de eu estar tão 'ansioso' (teclado miserento, me propôs "ancião".  Poxa, calma aí que eu já chego lá). Também me sugere ter mais constança e força de vontade pra, no tempo certo, fazer as coisas de que tenho grandes vontades, mas não deixar de viver bem o presente. Porque talvez mais tarde eu mesmo perceba que eu nem queria aquilo tanto assim.
    Olha aqui, sua arvrinha, eu esperava tudo de vc, mas tu me surpreendeste.  Não nos percamos nesse diálogo. Fala comigo!

terça-feira, 20 de setembro de 2016


Nas estradas da vida
Um conto sobre bicicletas, escrito por um e vivido por muitos.






Quatro ciclistas partem para mais um treino de fim de semana numa manhã gelada. Flausino, o mais jovem do quarteto, composto por uma maioria de seniores, já havia tomado várias caiabas em rolés anteriores. O coitado sempre sobrava nos últimos quilômetros dos passeios e tinha de voltar acompanhado de si mesmo, por vezes até tarde da noite. A inexperiência e a adrenalina que acompanhavam suas pedaladas sempre faziam com que ele exaurisse grande parte das energias de seu corpo nos primeiros momentos do pedal.
Desta feita, o destino era a cidade de Paraibuna-RJ, nas imediações de Juiz de Fora. Dois dos ciclistas que participavam do evento não eram conhecidos do rapaz, o terceiro era o Clebin (Ney Matogrosso), esse já um sênior da elite, atleta tradicional da cidade, com quem costumava treinar com regularidade. Pé na estrada, descemos pela União Indústria passando por Matias numa friaca que quase congelava as pernas e tudo, nisso o jovem só fazendo o reconhecimento do terreno do itinerário. Na sequência do caminho, já na Br 040, alcança-se a praça do pedágio, dobra-se à direita num trajeto que, a bem da verdade, se perfaz numa maioria de declives. Aprende-se muito com a geografia. O ciclista juizdeforano é um mountain biker por excelência. Aqui a galera é nata da montanha, os joelhos que o digam.
Mas voltemos à história. Mal chegam na cidade de destino, não esticam assunto, e logo iniciam o percurso de retorno. Agora é encarar as pirambeiras pra chegar em casa. Na verdade, as subidas de volta não seriam tão íngremes, contudo, bastante longas. É super interessante e esportiva a dinâmica de revezamento da frente do pelotão. Os atletas numa formação coesa vão vencendo a resistência do ar, enfrentando as rajadas de vento e forçando um deslocamento mais rápido. Nisso também se vai compartilhando os ritmos e potências dos corpos ali envolvidos. Impõe-se um ritmo e seu corpo experimenta uma outra forma de se estar sendo. 
Naquela troca de informações de pulsos, Flausino começou a sentir que sua carga energética não havia sido tão desgastada dessa vez. Os pequenos tiros vão sendo intensificados. Sempre que um passa à frente, todo o pelotão mantém-se naquele ritmo até que outro ciclista se considere em condições para superá-lo. A dinâmica não se estabelece de prévio acordo, vai se construindo pela disposição dos participantes. 
O avanço do retorno é ligeiro e os atletas já estão se aproximando do terceiro terço do caminho. Flausino, de maneira automática, já reconhecia os indícios do momento que se anunciava. Ele tinha se preparado, sentia que seu corpo estava bem, seus músculos estavam ansiosos por serem testados. Eles lhe exigiam, precisavam de um esforço maior. Os revezamentos vão se intensificando, as respirações se tornando ainda mais ofegantes, o peito arde. O jovem, desta vez, também não pensa em afogar. Chega a hora. Existe uma pequena quantidade de água na sua garrafinha, ele o espreita, e, num jogo de ombros e braços que joga a bike de lateral a lateral, se ergue do banco, mantendo o abdômen abaixado para adquirir uma aerodinâmica favorável, disparando num fortíssimo sprint precoce que surpreende seus companheiros. Provavelmente eles imaginavam que aquela manobra se esgotaria em pouco tempo, resultando em mais uma cabeçada do iniciante. Flausino, conhecido como garimpeiro, por viver à procura de partes de peças para suas bicicletas nas sucatas das oficinas, todavia, não reduziu mais a batida, e nem sequer olhou pra trás. Seguiu constante naquele compasso pelo último quarto do trajeto de retorno, atravessando a subida da estrada de Matias até alcançar a baixada do bairro Vila Ideal. Quando só então olhou pra trás e percebeu que o Clebin, outro obstinado, estava colado no vácuo! 
- Puta que partiu, Garimpeiro! Demos na cabeça deles! Vc usando essas roupas largas colei no seu vácuo. 
Eis aí mais um exercício de experiência, mais um aprendizado e a reflexão de que, muitas vezes, um "atleta" até compete junto de outros esportistas, mas no fundo sua disputa é sempre interna e consigo mesmo.

De: Weber Wagner
Para: Wilson Wagner