Nas estradas da vida
Um conto sobre bicicletas, escrito por um e vivido por muitos.
Quatro ciclistas partem para mais um treino
de fim de semana numa manhã gelada. Flausino, o mais jovem do quarteto,
composto por uma maioria de seniores, já havia tomado várias caiabas em rolés
anteriores. O coitado sempre sobrava nos últimos quilômetros dos passeios e
tinha de voltar acompanhado de si mesmo, por vezes até tarde da noite. A
inexperiência e a adrenalina que acompanhavam suas pedaladas sempre faziam com
que ele exaurisse grande parte das energias de seu corpo nos primeiros momentos
do pedal.
Desta feita, o destino era a cidade de
Paraibuna-RJ, nas imediações de Juiz de Fora. Dois dos ciclistas que
participavam do evento não eram conhecidos do rapaz, o terceiro era o Clebin
(Ney Matogrosso), esse já um sênior da elite, atleta tradicional da cidade, com
quem costumava treinar com regularidade. Pé na estrada, descemos pela União Indústria passando
por Matias numa friaca que quase congelava as pernas e tudo, nisso o jovem só
fazendo o reconhecimento do terreno do itinerário. Na sequência do caminho, já na Br 040, alcança-se a praça do
pedágio, dobra-se à direita num trajeto que, a bem da verdade, se perfaz numa
maioria de declives. Aprende-se muito com a geografia. O ciclista juizdeforano
é um mountain biker por excelência. Aqui a galera é nata da montanha, os
joelhos que o digam.
Mas voltemos à história. Mal chegam na
cidade de destino, não esticam assunto, e logo iniciam o percurso de retorno. Agora é encarar as
pirambeiras pra chegar em casa. Na verdade, as subidas de volta não seriam tão
íngremes, contudo, bastante longas. É super interessante e esportiva a dinâmica
de revezamento da frente do pelotão. Os atletas numa formação coesa vão
vencendo a resistência do ar, enfrentando as rajadas de vento e forçando um
deslocamento mais rápido. Nisso também se vai compartilhando os ritmos e
potências dos corpos ali envolvidos. Impõe-se um ritmo e seu corpo experimenta uma
outra forma de se estar sendo.
Naquela troca de informações de pulsos, Flausino começou a sentir que sua carga
energética não havia sido tão desgastada dessa vez. Os pequenos tiros vão sendo intensificados. Sempre que um passa à frente, todo o
pelotão mantém-se naquele ritmo até que outro ciclista se considere em
condições para superá-lo. A dinâmica não se estabelece de prévio acordo, vai se
construindo pela disposição dos participantes.
O avanço do retorno é ligeiro e
os atletas já estão se aproximando do terceiro terço do caminho. Flausino, de
maneira automática, já reconhecia os indícios do momento que se anunciava. Ele
tinha se preparado, sentia que seu corpo estava bem, seus músculos estavam
ansiosos por serem testados. Eles lhe exigiam, precisavam de um esforço maior.
Os revezamentos vão se intensificando, as respirações se tornando ainda mais
ofegantes, o peito arde. O jovem, desta vez, também não pensa em afogar. Chega
a hora. Existe uma pequena quantidade de água na sua garrafinha, ele o
espreita, e, num jogo de ombros e braços que joga a bike de lateral a lateral,
se ergue do banco, mantendo o abdômen abaixado para adquirir uma aerodinâmica
favorável, disparando num fortíssimo sprint precoce que surpreende seus
companheiros. Provavelmente eles imaginavam que aquela manobra se esgotaria em
pouco tempo, resultando em mais uma cabeçada do iniciante. Flausino, conhecido
como garimpeiro, por viver à procura de partes de peças para suas bicicletas
nas sucatas das oficinas, todavia, não reduziu mais a batida, e nem sequer
olhou pra trás. Seguiu constante naquele compasso pelo último quarto do trajeto
de retorno, atravessando a subida da estrada de Matias até alcançar a baixada do
bairro Vila Ideal. Quando só então olhou pra trás e percebeu que o Clebin,
outro obstinado, estava colado no vácuo!
- Puta que partiu, Garimpeiro! Demos
na cabeça deles! Vc usando essas roupas largas colei no seu vácuo.
Eis aí mais
um exercício de experiência, mais um aprendizado e a reflexão de que, muitas
vezes, um "atleta" até compete junto de outros esportistas, mas no fundo sua disputa é
sempre interna e consigo mesmo.
De: Weber Wagner
Para: Wilson Wagner

Adoro os seus contos. Quando estou lendo, fico imaginando cada cena, é como se eu estivesse vendo tudo acontecendo. É uma leitura muito prazerosa...continue nos dando essa sensação!!
ResponderExcluirObrigado, Amor! Adoro vc e a força de incentivo que a sua dedicação me inspiram. Bjus!!
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